“Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro nem prata, nem nenhuma coisa de metal, nem de ferro; nem as vimos. Mas, a terra em si é muito boa de ares, tão frios e temperados, como os de lá. Águas são muitas e infindas. De tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem”.

“Mas o melhor fruto que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente; e esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar.”

Pero Vaz de Caminha – Carta a el-rei dom Manuel, em 1500

Este nosso Brasil, tão novo e tão velho, agora é estrela mundial na comunidade dos investidores e, portanto, objeto de desejo da imprensa econômica. Quase 200 milhões de pessoas, habitantes desta parte do globo, agora denominados “consumidores”, que há cinco anos eram desconhecidos de todos entraram nas antenas das empresas globais.

Os fundos de investimentos de todos os cantos do mundo visitam nosso país procurando oportunidades para aproveitarem o rápido “crescimento à taxas chinesas” que este território poderá oferecer.

Já vivemos isto antes. Várias vezes! Mas desta vez há algumas mudanças estruturais bastante significativas que merecem reflexão sobre as vantagens que podemos tirar deste momento.

Taxas vigorosas de crescimento econômico nunca se mantiveram por longo tempo devido a com a fragilidade de nossa economia mono-produto – fortemente baseada em commodities naturais e agrícolas.

Nossa região neste globo, cujas fronteiras todos como Brasil – é grande produtora de proteínas: vegetais e animais. Estas commodities estavam desvalorizadas até alguns anos pois o mercado consumidor concentrava-se na Europa e nos Estados Unidos. Nossa fragilidade era muito grande. Só crescíamos quando a produção de proteínas nas economias centrais entrava em crise. Os termos de troca eram muito desfavoráveis : mandávamos um navio de soja com o que podíamos comprar um chip de computador !!!

Com a entrada da China e da Ásia no mercado internacional e o seu vigoroso crescimento econômico – o consumo mundial de commodities cresceu e o de proteínas também. A estrutura da demanda mudou e os termos de troca nos ficaram um pouco mais favoráveis.

Temos que aproveitar este momento para algumas mudanças estruturais na atividade econômica interna. Mudanças que transformem nossa economia e evitem o ciclo vícios do passado.

Produzir proteínas e explorar minério de ferro nunca foi atividade mão de obra intensiva. O movimento de distribuição de renda destas atividades não é muito forte. O crescimento baseado nestas atividades – deixado em ritmo de capitalismo selvagem provocará a concentração de renda e não dará dividendos nem transformações. Como temos concentração da propriedade agrária, concentração da produção nas mãos de poucos empreendedores, concentração de financiamento para os grandes produtores etc.. o resultado necessariamente será a concentração de renda. Voltaremos a produzir grandes empresários, símbolos do dinamismo brasileiro e milhares de famintos… no país das proteínas. Este filme é velho ! Já conhecemos…

Por outro lado, não temos vocação industrial. Nossa indústria é responsiva aos movimentos internacionais e – quando muito – substitutiva de importações. Isto se o cambio assim o incentivar e o governo subsidiar.

Portanto o desenlace deste momento de centro das atrações mundiais é conhecido: somos uma economia com moeda valorizada devido à forte exportação de commodities (famoso “efeito holandês”) que caminha aceleradamente para o processo de concentração de renda. As políticas públicas de “bolsas” (bolsa família, bolsa alimentação, bolsa qualquer coisa…) ajudam a distribuir renda enquanto a carga fiscal para os poucos pagadores de impostos assim suportar. Os governantes são necessariamente populistas e, portanto demagogos e irresponsáveis. Não podem ser de outro jeito. Recebem doações daqueles que concentram a renda para acalmarem as massas. E – cumprem a sua função de manter a ordem neste caos orquestrado.

Qual seria uma agenda de mudança, de transformação ? O que eu gostaria de ver nos programas de governo dos candidatos. O Governo Lula já esgotou a fase de resultados positivos que esta situação internacional nos trouxe. Soube explorar muito bem politicamente esta onda. Temos uma eleição à frente e os candidatos estão preparando seu conteúdo de governo.

Turismo é a resposta mais comum e a menos criativa delas : nosso diferencial competitivo exclusivo – “lençóis maranhenses só tem aquele!” está fazendo sua parte nesta busca de diversificação das nossas vocações. E os investidores internacionais estão respondendo com a construção de inúmeros hotéis e resorts pelo nosso nordeste. Esta atividade é mais justa socialmente pois promove a integração de dezenas de pessoas na prestação de serviços. A cadeia produtiva se expande através de mais educação profissionalizante, diversificação de atividades de lazer, etc.

Integrar nosso país na rede automobilística mundial é outra atividade que deu certo nestes últimos anos. Gerou emprego, distribuiu renda.. mas sempre estaremos longe do pólo de decisão que sãos quartéis generais das grandes montadoras (cada vez mais chinesas !!!)

Etanol é mais uma fonte autônoma de riqueza que terá valor mundial. Certamente poderemos ser os “xeiques do petróleo verde”, socialmente correto, ecologicamente aceitável. Mas de novo, o desafio será redistribuir esta renda que certamente terá mais um vetor de concentração.

O óleo do pré-sal é outra fonte de dinamismo. Colocará o país em outro patamar de alternativas gerando inúmeras oportunidades de atividade correlatas e diversificação de conhecimento. O resultado final – entretanto – será mais apreciação da nossa moeda pois seremos exportadores líquidos.

Temos várias fontes de dinamismo pela frente. É uma situação diferente daquelas existentes em situações de bonança cambial anteriores. Estamos melhores mas isto não é suficiente par uma vigorosa distribuição de renda que possa reverter este quadro social conseguimos construir ao longo destes anos dependência da economia mundial.

É urgente desenvolvermos mais vocações que promovam uma relativa independência. Até porque teremos concorrentes na produção de proteínas. O grande inimigo a ser batido é a China, com seus estoques “intermináveis” de mão de obra barata e que continuará a ser o parque fabril mundial inibindo a produção local de bens manufaturados.

Temos que pensar muito diferente… e evitar as mazelas das sociedades- como os estados árabes não conseguem superar a cultura econômica baseada em monoproduto. As sociedades daqueles países criaram uma cultura social baseadas em valores construídos em cima de uma economia monoproduto. Acho que não é isto que queremos para nosso gigante adormecido !!!

Grandes desafios para os candidatos transformarem a história deste pedaço do mundo pródigo em sol, água e terras e riquezas!!!! Ou sol, suor e cerveja!!!