Sob o título “Deterioração de Fundamentos x Market Timing” o gestor de fundos e empresário Luis Stuhlberger em relatório de Gestão do fundo CSHG Verde em Outubro de 2009 indica suas preocupações com uma certa “tendência” à reversão de tendências no quadro econômico e institucional brasileiro. Mais precisamente ele está preocupado com

  1. as baixas taxas de crescimento históricas do Brasil em relação aos demais países,
  2. a maior participação dos bancos públicos no mercado de crédito,
  3. a força da Petrobrás e o desenho do marco-regulatório do Prá-sal,
  4. a intenção do governo de fortalecer a Eletrobrás e a Telebrás,
  5. as investidas contra a Vale do Rio Doce

E termina o seu artigo com uma pergunta

A angústia é “when and if” os mercados e agências de rating iraõ punir os ativos brasileiros pela contínua deterioração fiscal, populismo, assistencialismo, perda de competitividade, etc…É muito difícil dar uma resposta.

As identificações acima são totalmente corretas. As preocupações legítimas e de acurado senso de percepção.

Minha análise entretanto é que estas manifestações não são novas e não representam reversão de expectativas ou de curso de pensamento político.

O Brasil é um frágil exportador de commodities. Frágil pois depende dos preços mundiais destas commodities para equilibrar suas contas externas. Isto desde que os Portugueses aqui aportaram. Nunca tivemos um mercado interno forte, pujante, que fosse auto-sustentado. Em nenhum momento da nossa história econômica sobrevivemos com as nossas próprias forças. O brilhante e consagrado livro do brasilianista Thomas Skidmore – De Getúliol a Castelo – escrito na década de 60 já reportava magnificamente os ciclos políticos brasileiros alinhados com as oscilações de nossa balança comercial e com o fluxo de capitais externos. Nunca tivemos ideologia, ao contrário – sempre fomos pragmáticos ! Esta é a essencia da história do Brasil. E de todos os BRIC.

Naquele tempo não tínhamos um mercado de capitais desenvolvido e um flu xo de capitais livre e instantâneo como temos hoje. Os ciclos econômicos eram “fabricados” pelos governantes e pelas humores das alianças políticas que eles conseguissem desenvolver.

Tal como no período de Skidmore, a economia brasileira é bastante frágil ! Depende fundamentalmente do cenário internacional para ganhar fôlego para o seu crescimento. Assim como na época dos portugueses – vivemos da exportação de produtos naturais e produtos à base de sol, água e fertilizantes.

Somos competitivos nas commodities mas não temos a menor chance de sermos competitivos com os chineses nos produtos que tenham um certo grau de mão de obra. Nossa mão de obra barata é caríssima para os padrões chineses. Nossa mão de obra qualificada equivale ao preço da mão de obra européia e americana.

O fato “novo” – que também existiu na década de 50 – é que o sucesso das exportações de commodity valoriza o Real e diminui ainda mais a competitividade da nossa mão de obra.

E como sempre –para resolver esta fragilidade – o governo entra para defender nossas reservas naturais, proteger nossos mercados e tentar manter o poder político sobre a atividade empresarial local. Assim fizeram os europeus durante décadas. E – nesta crise de 2008 fizeram os europeus continentais e os anglo saxões dos dois lados do atlântico. Não há nada mais poderoso do que um Estado Protetor…

E isto não é novidade e não deveria surpreender o calejado e bem sucedido Luis Stuhlberger… Dá para conviver com isto e – principalmente – esta ação protetora do estado aumenta nosso “rating”. Sempre foi assim e assim será. Desde os tempos dos portugueses.

Como dizem João Grilo e Chicó no Auto da Compadecida : “Num sei, só sei que foi assim”