Revista Exame – 21.10.2009 – No. 20

“As gravadoras acabaram. Felizmente”

João Marcello Bôscoli, executivo da indústria musical diz que as empresas que ainda vivem da venda de álbuns estão a um passo da extinção

Por Tiago Maranhão | 15.10.2009 | 00h01

Fundador e presidente da gravadora Trama, o executivo João Marcello Bôscoli, de 39 anos, está preparando os 400 álbuns produzidos pela empresa para ser oferecidos de graça pela internet em 2010. Na entrevista a seguir, ele fala por que o modelo de negócios baseado exclusivamente na venda de discos faz parte do passado.

1) Se a Trama está dando de graça seu principal patrimônio, que são as músicas dos artistas contratados, como vai ganhar dinheiro?
As vendas de mídias físicas, como os CDs, representam hoje apenas 14% de nosso faturamento. Criamos um modelo no qual as pessoas baixam músicas de graça e o artista recebe o pagamento via patrocínios captados pela Trama. Além disso, produzimos shows, programas de rádio e TV, temos nossa editora, agenciamento de artistas, fazemos licenciamentos e temos nossos estúdios.

2) Que tipo de empresas se interessam por esses patrocínios musicais?
Os principais anunciantes de mídias tradicionais, como revistas, jornais e televisão, também são os principais interessados por esses projetos. Já fizemos parcerias com empresas como a Volkswagen, a Natura, a Vivo e a Microsoft.

3) Qual o retorno de uma empresa que patrocina um álbum?
A música gera um laço emotivo perene. As empresas que patrocinam projetos procuram pegar carona nessa relação especial entre o ouvinte e o artista.

4) Nesse novo modelo de negócios, ainda há espaço para grandes gravadoras e conglomerados como a Warner dos anos 80?
As gravadoras acabaram. Felizmente. Pelo menos no sentido de empresas que vivem de vender música, como era no passado. Há espaço para o surgimento de outras grandes empresas no setor, mas não com essa mesma mentalidade.

5) Onde as gravadoras erraram?
Elas começaram a morrer quando declararam guerra à internet. Foi uma burrice, equivalente a uma fábrica de velas tentar processar Thomas Edison por inventar a lâmpada. O trânsito de arquivos musicais na internet é uma coisa sem volta. Como explicar a um adolescente de hoje a ilegalidade do MP3?

6) Os artistas não vão ficar a ver navios num mundo onde ninguém paga por suas músicas?
Alguém sempre pagará pelas músicas, mas não necessariamente o público. E a maior receita dos artistas sempre veio dos shows e não dos discos.

7) As gravadoras e os CDs vão deixar saudades?
As novas empresas do setor, em vez de basear seu negócio na venda de uma única mídia, o CD, vão ter de diversificar sua atuação. E o momento é bastante oportuno. A música hoje está mais presente na vida das pessoas do que nunca. Em games, computadores, celulares, players digitais portáteis e outros lugares onde nunca esteve antes. Quanto ao CD, basta lembrar que ele risca, o encarte rasga e o estojo desmonta. Alguém vai sentir saudades de um negócio desses?

Assim como nesta “profecia” existem inúmeras outras que geram negócios interessantes e movem os empreendedores. As profecias normalmente ocorrem bem antes da realidade as processarem. Este “timing” é cruel para com os empreendedores. Eles tem que agir rápido demais para aproveitarem as vantagens do “first mover” ou a realidade é mais lenta e eles podem “amadurecer” antes do mercado realmente capturar a idéia na qual eles gostariam de surfar.

Há inúmeros exemplos dos dois casos na história empresarial. Esta relação Inovação versus Hábito de Consumo requer um timing quase perfeito para tornar os inovadores um sucesso empresarial. Esta é razão fundamental pelo qual os mercados nunca alcançam o equilíbrio perfeito. Sempre haverá uma inovação e um empreendedor disponíveis para perturbar a ordem vigente.

Desde 1998 – 2000 com o advento da internet e das “ponto com” o mercado assiste a transformações estruturais na forma de consumir. A “compra on line” cresce permanentemente – na medida em que o consumidor aprende a “comprar on line” e os fornecedores aprendem a “vender on line”. Substituir o ato de tocar o produto desejado, a experimentação, a análise visual, reputação do lojista… são desafios complexos  que o comércio virtual tem procurado superar.

O fenômeno mais óbvio de sucesso na transformação de hábitos de consumo, além da música é o da compra de livros. O comércio online cresce diariamente ! Mesmo este sucesso convive com a resistência dos consumidores que adoram o hábito de perambular por livrarias. As quais aliás estão se transformando em ponto de encontro e convivência para estimular o consumo físico. Nada como ir á uma grande livraria, num domingo chuvoso e perambular pelas estantes tomando um sorvete ou um chocalete quente. Tudo pode acontecer num momento descontraído como este !!!!