A alegria do Goldman Sachs

Paul Krugman

O Estado de São Paulo

Sábado, 18 de Julho de 2009 | Versão Impressa


A economia americana continua numa situação muito difícil, com um trabalhador em cada seis desempregado ou subempregado. No entanto, o Banco Goldman Sachs acaba de anunciar lucros trimestrais recordes e se prepara para distribuir enormes bonificações aos seus executivos, comparáveis às que costumava pagar antes da crise.

O que mostra esse contraste? Em primeiro lugar, que o Goldman sabe fazer muito bem o que faz. Mas, infelizmente, o que faz é péssimo para os Estados Unidos. Em segundo lugar, mostra que os maus hábitos de Wall Street – principalmente o sistema de remuneração de executivos, que contribuiu para provocar a crise financeira – não desapareceram.

Terceiro, mostra que, resgatando o sistema financeiro sem reformá-lo, Washington nada fez para nos proteger de uma nova crise e, na realidade, pode ter provocado outra.

Vejamos como o Goldman ganha dinheiro. Na geração passada – com a desregulamentação do setor bancário dos anos Ronald Reagan -, a economia americana foi “financializada”. As atividades que consistem em movimentar, fatiar, picar e reembalar operações de crédito adquiriram uma extraordinária importância em comparação com a produção concreta de coisas úteis.

Oficialmente, o setor rotulado de “títulos, contratos de commodities e investimentos” cresceu particularmente depressa, de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no final da década de 70 para 1,7% em 2007. Esse crescimento seria ótimo se a “financialização” cumprisse o que promete, isto é, se as instituições financeiras ganhassem dinheiro dirigindo capital para empregos mais produtivos, desenvolvendo formas inovadoras de dispersar e reduzir o risco. Mas, a esta altura, será que alguém pode fazer tais demandas com uma expressão impassível?

As financeiras, que conhecemos agora, destinaram enormes volumes de capital para a construção de casas invendíveis e shoppings vazios. Aumentaram o risco em lugar de reduzi-lo, e o concentraram em lugar de dispersá-lo. Na realidade, o setor vendia um remédio perigoso para consumidores crédulos.

O papel do Goldman na financialização dos EUA assemelhava-se ao de outros atores do setor, salvo por uma coisa: o Goldman não acreditava em sua própria publicidade. Outros bancos investiram pesadamente no mesmo lixo tóxico que vendiam ao público. 

O Goldman, notoriamente, ganhou muito dinheiro vendendo títulos lastreados em hipotecas de pagamento duvidoso – depois ganhou muito mais vendendo a descoberto títulos lastreados em hipotecas, pouco antes que seu valor despencasse. Tudo isso era perfeitamente legal, mas, como resultado, o Goldman lucrou brincando conosco, os bobalhões. E os executivos de Wall Street têm todos os incentivos para continuar se dedicando a esse tipo de jogo.

As bonificações fabulosas do Goldman em breve mostrarão que os executivos mais promissores do setor financeiro continuam trabalhando num sistema em que ou eles ganham ou os outros perdem.

Se você é o executivo de um um banco e consegue enormes lucros no curto prazo, é regiamente recompensado – além disso, não precisa devolver o dinheiro se e quando fica patente que esses lucros não passavam de uma miragem. Então, você tem todas as razões para levar os investidores a assumir riscos que não compreendem.

Os acontecimentos do ano passado mostraram que esses incentivos contribuíram para desequilibrar ainda mais, deixando tanto contribuintes quanto investidores em desvantagem quando as coisas deram errado.

Não pretendo analisar as declarações dos concorrentes sobre a quantia que o Goldman recebeu em benefícios diretos nas recentes operações de resgate financeiro, principalmente quando o governo assumiu o passivo da seguradora American International Group (AIG).

O que está claro é que Wall Street em geral, incluindo o próprio Goldman, se beneficiou enormemente da ajuda financeira proporcionada pelo governo como último recurso – a garantia de que estará sempre pronto a resgatar os principais atores financeiros quando as coisas derem errado.

Podemos argumentar que essas operações são necessárias para evitar uma reedição da Grande Depressão. Concordo. Mas, como resultado, o passivo do sistema financeiro conseguiu o respaldo de uma garantia oficial implícita.

A última vez em que houve uma expansão comparável da rede de segurança financeira, a criação do seguro de depósito federal, na década de 30, essa foi acompanhada por uma regulamentação muito mais rigorosa, a fim de assegurar que os bancos não abusassem dos seus privilégios.

Desta vez, as novas normas continuam na fase de elaboração – e o lobby financeiro já se bate contra as proteções mais elementares para os consumidores.

Se os esforços desse lobby forem bem-sucedidos, teremos preparado o terreno para um desastre financeiro ainda maior, dentro de alguns anos.

A próxima crise poderá assemelhar-se à das sociedades de crédito imobiliário da década de 80, em que os bancos desregulamentados jogaram e em alguns casos roubaram o dinheiro dos contribuintes – com a exceção de que esta poderá envolver todo o setor financeiro.

Resultado: o estouro trimestral do Goldman é uma boa notícia para o Goldman e as pessoas que trabalham lá. É uma boa notícia para os superastros das finanças em geral, cujas remunerações voltaram rapidamente aos níveis anteriores à crise. Mas é uma péssima notícia para quase todos os outros.