Economistas avaliam que alguns setores industriais no País ainda podem ser duramente atingidos pela crise

O Estado de São Paulo

Sexta-Feira, 26 de Junho de 2009

Segmentos industriais que ainda não foram fortemente atingidos pela crise podem vir a ser, embora em 14 de 21 setores muito atingidos a situação tenha parado de piorar e já haja até alguns em recuperação. Um quadro incerto, heterogêneo, com oportunidades, mas basicamente sombrio foi montado para os próximos cinco anos por economistas convidados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para um o painel de debates, nas comemorações, ontem, dos 57 anos da instituição.

O ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Julio Sergio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial (IEDI) e da Universidade de Campinas (Unicamp), iniciou as apresentações mostrando a diversidade com que os setores da indústria estão reagindo à crise. De 76 subsetores, 32 estão com tendência de aumentar o seu contágio pela crise, 19 estão estáveis, 19 estão com contágio menor e seis estão em recuperação, segundo sondagem com empresários.

Segundo ele, há setores que estão melhorando, como celulose e automóveis, e há os que vão piorar. “Alimentos e bebidas é um setor que está na fila (de maior contágio)”, disse ele. Gomes de Almeida considera que, no longo prazo, a indústria tradicional e de insumos básicos “estão em xeque”. 

Mas, no momento, ele destacou que a queda dos juros está levando os bancos a emprestar mais, sobretudo para o consumo das pessoas físicas, e a habitação tem boas perspectivas. Também citou que o emprego “surpreendentemente” está melhor do que se esperava, porque não se vê para o momento ondas de demissões. 

Já o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) David Kupfer vê a possibilidade de grande desemprego nos próximos cinco anos, uma onda de fusões e aquisições, com desnacionalização de indústrias, e desconstituição de sistemas de inovação. “Receio que a indústria volte a precarizar e a demitir, matando a origem do ciclo de dinamismo no mercado interno (a renda)”, disse Kupfer, que também acredita que a retomada das exportações será lenta. 

“A indústria tradicional já estava mal antes da crise e tem mais fragilidade competitiva”, disse. Segundo ele, a indústria tradicional responde por 60% do emprego tradicional e entre seus setores estão vestuário, têxteis, calçados, alimentos e bebidas, móveis e utensílios domésticos. “Um grande tombo na siderurgia afeta pouco o emprego, mas um pequeno tombo no vestuário é um grande tombo no emprego”, afirmou. 

O professor da Universidade de São Paulo (USP) Guilherme Dias colocou mais dúvidas em relação à indústria. Ele apontou que poder haver uma grande transformação tecnológica em relação à energia. “Se é por aí, para tudo o que é investimento na indústria de bens de consumo duráveis”, disse. “Com a TV digital, por 10 a 15 anos ninguém investiu em uma planta de TV de tubo.Temos de analisar onde há essa transformação.”